domingo, 21 de novembro de 2010

O ensinar a técnica e a alienação da prática

Volto hoje a publicar aqui, mas mudei um pouco o que tinha me proposto no post anterior. Não falarei mais sobre as peculiaridades da alienação no ensino jurídico. Vou aqui tentar concluir os pensamentos que já desenvolvi nos posts: A alienação no meio estudantil e A alienação da universidade moderna. Deixo o ensino jurídico para momento posterior. Eventualmente até penso em um post construído por mais mãos.

            O que quero discutir agora é precisamente uma problemática que repeti nos posts anteriores, que é a questão da técnica. Acredito ser, precisamente, o ato de transformar saberes em técnicas, um dos fatores que tem servido para provocar esse estranhamento, essa alienação, no meio estudantil sobre a qual venho falando.
            A princípio, creio ser um pouco difícil caracterizar o que compõe um conhecimento técnico. Acredito que, de forma simplificada, podemos dizer que técnica é “um procedimento ou o conjunto de procedimentos que têm como objetivo obter um determinado resultado”.
            Pois bem, partindo dessa definição, acredito que já seja possível ver aqui o ponto chave do que falei nos posts anteriores; o estranhamento (aquilo que chamei mais vulgarmente de alienação[1]).
            Se a técnica é um conjunto de meios, já vemos que, com a própria constituição de um saber técnico, se procede uma separação, uma cisão entre meios e fins. Dessa maneira, quando se ensina[2] uma técnica, ou apenas uma técnica, sem passar pelo estudo da constituição desse saber, perde-se a noção da real serventia desse conhecimento.
            No caso das nossas universidades, que hoje se voltam apenas ao fortalecimento do caráter mercantil e espetacular da nossa sociedade como falei no post anterior, o que se tem feito é lecionado técnicas, de modo a produzir estudantes que dominem esses sabres, mas que não vislumbram a finalidade das práticas que virão a desempenhar.
            No fundo a alienação (ou estranhamento) se dá quando o realizador da tarefa não consegue mais reconhecer o produto do seu trabalho. Na universidade, os estudantes precisamente são esses agentes, que não estudam, e conseqüentemente não enxergam, o produto da técnica que aprendem. Estuda-se um conjunto de procedimentos para um fim que é dado, não se conhece de verdade e nem se busca conhecer.
            É por isso que a instituição e o ensinar da técnica é, em si, uma forma de alienação. Para que se possa efetivamente utilizar-se da técnica seria recomendado conhecer muito bem seus objetivos, para não se cair no estranhamento entre o operador e o produto das operações.   
            No mais, ao se estudar exclusivamente a técnica e desligá-la de seus fins, o que se constrói é uma espécie de “naturalização” desses objetivos que busca a técnica. Concebe-se assim uma idéia de “desenvolvimento técnico”. Como se houvesse apenas um sentido possível de desenvolvimento. Como se “desenvolver-se” contivesse em si toda sua significação e não coubesse o complemento desenvolver-se para onde, ou em que sentido.
            Dessa maneira, a técnica funciona como meio de estreitar a visão dos que a estudam e fazê-los enxergar apenas em uma direção.
            Meu ponto é que, ao manter um estudo focado demasiadamente em técnicas, o principal objetivo que se alcança é mesmo naturalizar os rumos da idéia de desenvolvimento que essas técnicas concebem. No caso da universidade, trata-se de fazer de tudo para que não se estude os fins, apenas os meios, de forma que possamos desenvolver meios extraordinários para fins que não devemos mudar, já que não nos é permitido estudar e questionar.
            Por isso a universidade que se volta para os interesses exclusivamente do mercado e que só forma profissionais é uma estruturalmente castrante, alienante e conservadora do statu quo. A nossa universidade moderna é então o verdadeiro templo da ignorância. Entra-se com a pretensão de aprender e sai-se de lá com uma visão de mundo mais limitada do que no ingresso. É o espetáculo do ensino superior onde se produz ignorância com rótulo de sabedoria. Ignorância essa que chamamos conhecimento técnico.           
            Acredito que essa seja a síntese do que quis falar nesses três posts: esse, A alienação no meio estudantil e A alienação da universidade moderna. Concluo dessa forma essa temática por enquanto e passarei a outros assuntos nos próximos posts.
            Já informo que, nesse final de semestre, diminuirei as postagens. É bem possível que eu fique as próximas duas semanas sem fazer novos posts aqui. Mas assim que essa etapa mais conturbada passar, volto a me dedicar mais a esse espaço.

Ivan Sampaio


[1] Volto a repetir que o termo mais adequado seria simplesmente estranhamento. Mas assim como nos posts anteriores optei por alienação mesmo sabendo da imprecisão.     
[2] Não entrarei na problemática do ato de ensinar, mas talvez ainda faça um post sobre a “violência simbólica” que representa o ensino.   

3 comentários:

  1. Ivan,

    Sou um pouco mais pessimista, não creio que nos seja transmitido sequer conhecimento técnico, mas sim conhecimento de como aplicar certas técnicas. Em suma, somos habilitados a criar coisas diferentes, mas sem pensar o meio pelo qual o faremos - e técnica, no meu entender, é intervenção criativa do homem visando sua sobrevivência imediata ou não. É evidente que temos de aprender como intervir criativamente no meio, mas temos de saber, antes de mais nada criar (e, para tanto, entender) os meios pelos quais isso pode ser feito, em suma, somos ensinados a usar certas técnicas, mas não a pensar a Tecnologia - em sentido amplo mesmo, não na redução absurda que é feita do termo. Essa educação "alienante" é fruto não do Capitalismo de um modo geral, mas do Capitalismo tardio nas condições historicamente determinadas. Foi durante o Capitalismo que assistimos a um (aparentemente) contraditório avanço do conhecimento humano, o que nos leva à questão central do seu paradoxo: O Capitalismo precisa criar espaços para que se desenvolva conceitos (o que demanda permitir que as pessoas tenham meios para investigar e identificar os problemas reais) para que possa se servir deles em seu funcionamento esquizofrênico, mas ele tem de controlar isso de algum modo, do contrário se extinguirá. Sem risco, sem capitalismo, mas quanto mais risco, mais o capitalismo se aproxima de seu fim. No atual momento, estamos vendo um refluxo da produção filosófica e científica, mas isso é uma situação insustentável. Existe ainda um significante vazio que agrupa toda essa técnica que é apresenta como fim em si mesmo e não como meio: É a ideia de Progresso, como nos denuncia o bom e velho Benjamin na sua teses n. XIII sobre a História.

    abraços

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    1. Amigos façam seus cometários:

      - FUJAM DO MUNDO MELHOR:
      http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/04/fujam-do-mundo-melhor-meus-prezados-em_26.html


      - QUAL É A IDÉIA DE JUSTIÇA AFINAL?
      http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/05/amartya-sen-premio-nobel-de-economia.html



      - ENQUANTO ISSO EM UM AINDA DECENTE PAÍS DISTANTE - FHC VENCE PRÊMIO KLUGE:
      http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/05/enquanto-isso-em-um-decente-pais.html

      Abraço a Todos
      Osvaldo Aires

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    2. você por aqui? meu amigo Osvaldo Aires?
      abraço!

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