segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Postagem administrativa


            Escrevo hoje apenas para comunicar que ficarei essa semana sem fazer novas postagens nesse blog. Peço desculpas, mas nesse final de ano estou muito atarefado, em espacial com tarefas relativas à faculdade. Então devo voltar a escrever apenas por volta do dia 02 de dezembro.
            Para quem ainda não leu, veja minha última postagem: O ensinar a técnica e a alienação da prática. Confira e me fale o que achou. Respondo todos os comentários quando esse turbilhão passar. 
             Nessa semana que não escreverei recomendo aqui alguns blogs que acho interessantes. O blog de um grande amigo meu, o Gyo. Pedra no Curral. Tem apenas um post até agora, mas vale apena conferir.
            O blog de outro amigo, o Hugo: O Descurvo. Tenho certeza que ele manterá o ritmo das postagens mesmo nesse final de ano conturbado.
            O blog da Luka, amiga do jornalismo da PUC/SP. O Bidê Brasil.   
            Por fim o blog Brasil e Desenvolvimento de um coletivo extraordinário da UNB.   
            Agradeço a todos que vem acompanhado o que tenho escrito aqui. Quando estiver de férias da PUC/SP acredito que poderei me dedicar um pouco mais a esse espaço.

Abraço a todas e todos!   
Ivan Sampaio      

domingo, 21 de novembro de 2010

O ensinar a técnica e a alienação da prática

Volto hoje a publicar aqui, mas mudei um pouco o que tinha me proposto no post anterior. Não falarei mais sobre as peculiaridades da alienação no ensino jurídico. Vou aqui tentar concluir os pensamentos que já desenvolvi nos posts: A alienação no meio estudantil e A alienação da universidade moderna. Deixo o ensino jurídico para momento posterior. Eventualmente até penso em um post construído por mais mãos.

            O que quero discutir agora é precisamente uma problemática que repeti nos posts anteriores, que é a questão da técnica. Acredito ser, precisamente, o ato de transformar saberes em técnicas, um dos fatores que tem servido para provocar esse estranhamento, essa alienação, no meio estudantil sobre a qual venho falando.
            A princípio, creio ser um pouco difícil caracterizar o que compõe um conhecimento técnico. Acredito que, de forma simplificada, podemos dizer que técnica é “um procedimento ou o conjunto de procedimentos que têm como objetivo obter um determinado resultado”.
            Pois bem, partindo dessa definição, acredito que já seja possível ver aqui o ponto chave do que falei nos posts anteriores; o estranhamento (aquilo que chamei mais vulgarmente de alienação[1]).
            Se a técnica é um conjunto de meios, já vemos que, com a própria constituição de um saber técnico, se procede uma separação, uma cisão entre meios e fins. Dessa maneira, quando se ensina[2] uma técnica, ou apenas uma técnica, sem passar pelo estudo da constituição desse saber, perde-se a noção da real serventia desse conhecimento.
            No caso das nossas universidades, que hoje se voltam apenas ao fortalecimento do caráter mercantil e espetacular da nossa sociedade como falei no post anterior, o que se tem feito é lecionado técnicas, de modo a produzir estudantes que dominem esses sabres, mas que não vislumbram a finalidade das práticas que virão a desempenhar.
            No fundo a alienação (ou estranhamento) se dá quando o realizador da tarefa não consegue mais reconhecer o produto do seu trabalho. Na universidade, os estudantes precisamente são esses agentes, que não estudam, e conseqüentemente não enxergam, o produto da técnica que aprendem. Estuda-se um conjunto de procedimentos para um fim que é dado, não se conhece de verdade e nem se busca conhecer.
            É por isso que a instituição e o ensinar da técnica é, em si, uma forma de alienação. Para que se possa efetivamente utilizar-se da técnica seria recomendado conhecer muito bem seus objetivos, para não se cair no estranhamento entre o operador e o produto das operações.   
            No mais, ao se estudar exclusivamente a técnica e desligá-la de seus fins, o que se constrói é uma espécie de “naturalização” desses objetivos que busca a técnica. Concebe-se assim uma idéia de “desenvolvimento técnico”. Como se houvesse apenas um sentido possível de desenvolvimento. Como se “desenvolver-se” contivesse em si toda sua significação e não coubesse o complemento desenvolver-se para onde, ou em que sentido.
            Dessa maneira, a técnica funciona como meio de estreitar a visão dos que a estudam e fazê-los enxergar apenas em uma direção.
            Meu ponto é que, ao manter um estudo focado demasiadamente em técnicas, o principal objetivo que se alcança é mesmo naturalizar os rumos da idéia de desenvolvimento que essas técnicas concebem. No caso da universidade, trata-se de fazer de tudo para que não se estude os fins, apenas os meios, de forma que possamos desenvolver meios extraordinários para fins que não devemos mudar, já que não nos é permitido estudar e questionar.
            Por isso a universidade que se volta para os interesses exclusivamente do mercado e que só forma profissionais é uma estruturalmente castrante, alienante e conservadora do statu quo. A nossa universidade moderna é então o verdadeiro templo da ignorância. Entra-se com a pretensão de aprender e sai-se de lá com uma visão de mundo mais limitada do que no ingresso. É o espetáculo do ensino superior onde se produz ignorância com rótulo de sabedoria. Ignorância essa que chamamos conhecimento técnico.           
            Acredito que essa seja a síntese do que quis falar nesses três posts: esse, A alienação no meio estudantil e A alienação da universidade moderna. Concluo dessa forma essa temática por enquanto e passarei a outros assuntos nos próximos posts.
            Já informo que, nesse final de semestre, diminuirei as postagens. É bem possível que eu fique as próximas duas semanas sem fazer novos posts aqui. Mas assim que essa etapa mais conturbada passar, volto a me dedicar mais a esse espaço.

Ivan Sampaio


[1] Volto a repetir que o termo mais adequado seria simplesmente estranhamento. Mas assim como nos posts anteriores optei por alienação mesmo sabendo da imprecisão.     
[2] Não entrarei na problemática do ato de ensinar, mas talvez ainda faça um post sobre a “violência simbólica” que representa o ensino.   

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A alienação da universidade moderna


Hoje vou cumprir com o prometido e retomar o tema que iniciei no post A alienação no meio estudantil

            Quero então destacar a mudança que a instituição universidade (em especial no ocidente) sofreu mais ou menos a partir da década de 60 nos países ditos desenvolvidos e a partir da década de 90 na modernidade periférica.
            Essa mudança a que me refiro trata-se, fundamentalmente, do momento em que se percebeu o potencial da universidade para o projeto de desenvolvimento da modernidade. Em verdade a atual complexidade que tomou conta da vida moderna passa a demandar outra forma de profissionais. A mão de obra agora precisa ter algumas qualificações e algumas capacidades específicas, mas, assim como na alienação[1] fabril, esses novos profissionais também não podem ter a visão da totalidade do processo no qual serão inseridos.          
            É ai que a universidade passa, paulatinamente, a deixar de formar os “intelectuais burgueses” e começa a formar os técnicos que terão de operar o “sistema” em quase todos os níveis.
            Antes dessas transformações o objetivo da universidade era fundamentalmente a formação de intelectuais da burguesia. Era da universidade que sairiam aqueles que ocupariam os cargos de projeção na sociedade, em quase todos os ramos. Tratava-se de uma concepção extremamente elitizada. É dessa concepção de universidade que surgem alguns “rituais” que mantemos até hoje em alguns cursos, como as pomposas formaturas, que simbolizam bem esse espírito que foi condutor da universidade por tanto tempo. Hoje esses rituais se mantêm muito mais por tradição do que por real ligação com seus significados originais.
            No Brasil, atualmente, o que vemos é uma forte expansão do ensino universitário. Promove-se isso com o fundamento da inclusão. O que não se fala é que não se trata mais da mesma universidade. A idéia agora não é mais a de formar os intelectuais que darão rumo à sociedade. A universidade hoje forma fundamentalmente os “soldadinhos da classe média”. São técnicos com formação extremamente especializada e fragmentada.
         Em verdade a universidade passou a se prender a um desenvolvimento técnico que tem como marca a alienação. Trata-se de um ensino cada vez mais massificado que, como já falei no post A alienação no meio estudantil, resume-se a desenvolver saberes em um sentido único buscando finalidades que já não estão mais em discussão e que nem mesmo podem ser vislumbradas pelos estudantes. É a formação que não questiona para não transformar.
            Logo, o que se vê hoje é uma universidade muito menos elitizada que nas décadas de 50 e 60, mas que passou a simplesmente formar profissionais com a pretensão de que eles, em nenhum momento pensem, apenas reproduzam o que aprenderam.
            Não quero aqui defender o modelo intelectual burguês de universidade. Certamente o ensino extremamente elitizado não deve ser colocado como forma de resistência a essa nova estruturação. Meu ponto é que essa estrutura de universidade vem para cumprir dois papeis fundamentais: primeiro, colocar a universidade dentro dos marcos do capitalismo moderno e das demandas de mercado; e segundo, promover uma divisão internacional do ensino similar a divisão do trabalho, mantendo a modernidade periférica também na periferia do saber sem a possibilidade de se desenvolver em sentido diverso.
            Na Europa a coisa não caminhou em passo muito diverso, há algumas diferenças, mas, o mercado também fez sua incursão no espaço universitário. Desde a década de 60 os franceses, por exemplo, já alertam para essas mudanças, em destaque para a internacional situacionista que promoveu o que entendo ser a melhor crítica desse contexto em um texto já referido Da miséria no meio estudantil.  
            Acredito que o grande marco dessa transformação na Europa seja o chamado processo de Bolonha. Esse processo gestado na universidade de Bolonha é fundamentalmente uma proposta de reestruturação e unificação do ensino superior europeu objetivando a integração das universidades européias para maximizar a empregabilidade dos jovens.
           No Brasil podemos destacar programas como Prouni e Reuni no âmbito federal; a reestruturação de universidades estaduais com a presença de fundações privadas e capital privado principalmente no desenvolvimento de pesquisas; no âmbito das antigas universidades comunitárias a reestruturação do sistema como, por exemplo, das PUCs. Todos esses exemplos são reflexos das idéias esboçadas nesse processo de Bolonha. Além disso, a década de 90 permitiu ao próprio capital privado criar suas instituições de ensino superior. Tudo isso mostra a cara da nova universidade que passa a emergir no Brasil.   
            A diferença fundamental está que na chamada modernidade periférica a pretensão é a de formação de “técnicos subalternos”, que serão capazes de executar tarefas precisas, mas que não desenvolverão a técnica, apenas reproduzirão; e nem terão uma formação capaz de dar os rumos a esse desenvolvimento. Para isso as universidades Européias e Americanas manterão sua primazia e formarão aqueles que terão efetivas condições para dar as diretrizes desse desenvolvimento.
           Trata-se da mais moderna colonização do pensamento, onde o pensar a técnica e o conhecimento sobre o desenvolvimento permanecem nos centros do sistema e compete à periferia apenas obedecer aos ditames e as direções indicadas pelo saber de quem vai, efetivamente, desenvolver as técnicas a serem reproduzidas.
            É preciso que se diga que a visão de totalidade do sistema se perdeu seja no centro ou na periferia da modernidade. As finalidades desse desenvolvimento já não estão mais em questão. A diferença é que enquanto os países do centro formam aqueles que protagonizam o sistema, os países como o Brasil se limitam a formar os executores dessas diretrizes.
            É precisamente nesse contexto que vislumbramos a alienação que venho falando. Esses profissionais saber muito bem como chega a um destino que desconhecem. Acredito que nesse ponto valha uma velha citação do filme Queimada! (Gillo Pontecorvo): “Melhor saber onde se quer chegar e não saber como; do que saber como e não saber onde”.    
           Por fim, destaco que o processo a que me refiro ainda não se concluiu. Obviamente a universidade ainda é bastante elitizada e as transformações promovidas pelo mercado ainda são muito recentes. Mas creio que tracei aqui a direção que todo esse processo tem tomado. A idéia não está sendo inserir a universidade na sociedade ou a sociedade na universidade, mas sim colocar a universidade na órbita dos interesses do mercado e na lógica da produção, onde o estudante é a matéria prima e o técnico o produto.           

            Bem, sobre o tema recomendo também a leitura do post O Processo de Bolonha: O que é isso? Para quem é isso?
            Farei ainda um post sobre essa temática exemplificando o que falei com o ensino jurídico no Brasil e aprofundando um pouco mais na idéia de técnica como alienação. Tentarei publicar o mais breve possível.

Ivan Sampaio

P.s: Desculpem pela qualidade bem inferior desse post, sei que a análise aqui foi colocada de forma muito superficial, mas não consegui o tempo que queria para desenvolver as idéias. Prometo que no próximo corrijo isso.  





[1] Da mesma maneira que no post A alienação no meio estudantil, o termo mais adequado aqui possivelmente seria o estranhamento usado por Marx. Tendo em vista, entretanto, a significação que ambos os termos tem hoje, opto por usar alienação ainda que represente uma imprecisão terminológica.   

domingo, 14 de novembro de 2010

Quando o outro somos nós

        Antes de continuar a desenvolver o tema da universidade e do meio estudantil resolvi fazer esse post mais curto para comentar um pequeno vídeo que assisti esse fim de semana. Desculpo-me, de antemão, por não estar cumprindo a promessa de continuar o tema anterior agora, e peço que assistam ao vídeo Proibido Parar antes de lerem o que tenho a dizer, tem apenas 6 minutos e vale apena. Segue o vídeo aqui também:



video



        Achei o vídeo genial! É genial pela sua incrível simplicidade, as pessoas tomam uma atitude corajosa em defender o artista, e isso sem precisar de qualquer grande elaboração teórica de motivos. Trata-se de uma questão muito simples; reconhecer no outro um igual a si.
        Acredito que talvez essa seja a grande idéia e lição que podemos aprender dessas pessoas, que não tinham qualquer vinculo com o rapaz, mas foram capazes de se contrapor a autoridade por entender que uma afronta a liberdade do artista seria uma afronta à própria liberdade, à liberdade de todos.
        Mais fantástico é que não foi preciso nenhuma coordenação, de nenhum agitador, de nenhum dirigente. A identificação da opressão se deu de forma espontânea. Acredito que essa é uma pequena prova de que ainda é possível acreditar nas pessoas, elas não precisam ser esclarecidas, não precisamos ensinar a elas nossas verdades. Afinal de contas ninguém é idiota !
"Metamorphosis of Narcissus"  de Salvador Dali
      No fundo tudo passa pela velha problemática (acho que ainda kantiana) do outro. A grande idéia revolucionária é conseguir reconhecer no outro um igual.
        O que vemos em nossa sociedade é um constante esforço estratégico para impedir, por meio das relações de poder colocadas, esse reconhecimento. São os preconceitos étnicos que impedem as pessoas de perceberem em outra etnia um sujeito igual; são os preconceitos de opção sexual que insistem em impor barreiras nessa identificação; é a discriminação política, ideológica, social, religiosa ... Todos esses preconceitos e distinções são o que essencialmente nos divide e criam uma distinção artificial entre nós e os outros.
        Acredito que esse vídeo, muito simples, com pessoas em seu cotidiano, serve para nos mostrar que talvez as chamadas “massas” não precisem mesmo de uma “direção” nem de “iluminação”. O que podemos, acredito, concluir é que não é preciso a atitude de pessoas extraordinárias para trazer a “luz’ e a “verdade” para todos. Acredito que grandes atitudes são tomadas apenas quando mulheres e homens ordinários agem de forma extraordinária.
        O que precisamos mesmo perceber, é que pessoas que possuem verdades diversas das nossas, são igualmente capazes de atitudes extraordinárias.

Sobre esse tema recomendo um poema muito bonito do João Costa Filho no blog Espelho de Sombras
            
Me desculpem não ter continuado o raciocínio da postagem anterior. Mas na próxima retomo a idéia. Falarei da mudança dos objetivos da universidade e da relação desse novo paradigma com a condição do estudante.
            
Para quem não leu ainda, veja o meu post anterior aqui onde falei sobre a alienação no meio estudantil.


Ivan Sampaio 


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A alienação no meio estudantil

           Entendo que na nossa sociedade contemporânea é provável que os estudantes componham um dos grupos – se não o grupo - mais alienado existente.
            Para conseguir desenvolver o tema, inicio por um conceito. Pois bem, a alienação[1], no sentido marxista e abordando-a em relação à produção. Podemos afirmar, de forma simplista, que com a desvinculação do trabalho do homem do produto desse trabalho criou-se, na sociedade industrial, a incapacidade do trabalhador de compreensão do processo produtivo como um todo. Dessa forma, cada vez mais os funcionários se viam adstritos à reprodução de uma tarefa sobre a qual não tinham efetivo conhecimento, vez que não entendiam a finalidade do processo como um todo.
            Pois bem, na nossa contemporaneidade, não é segredo que as universidades caminham cada vez mais sob a condução dos interesses do mercado. O chamado ensino superior forma hoje essencialmente profissionais para um mercado de trabalho e a universidade cada vez mais pauta suas atividades para disciplinar os estudantes em moldes que os permitam ser bons operadores das engrenagens de suas atividades futuras. Nos cursos de direito se formam operadores da justiça; na administração, gestores da empresa (em alguns casos do Estado, visto como empresa); na engenharia, técnicos do funcionamento em diversas vertentes; na medicina, profissionais que tratam doenças ao invés de pessoas. Poderia mencionar muitos outros (Publicidade, Jornalismo, Arquitetura...), mas não vou individualizar um a um. Em síntese saem das universidades verdadeiras “fornadas de colarinho branco”.  
            Os exemplos que citei obviamente são locos onde a chamada “tecnicização” atingiu seus pontos mais elevados. Curiosamente são os cursos mais procurados, e que mais disponibilizam vagas atualmente nos bancos da academia. O que me pergunto é: o que significa a universidade se voltar para um desenvolvimento e formação preponderantemente técnica?
            De forma geral o que acontece é que essa função, a que serve a universidade hoje, trata não mais de desenvolver conhecimento, mas sim disciplinar esse desenvolvimento, para que ele se dê em uma única vertente. A vertente técnica. Desse modo a universidade se comporta como uma instituição que coloca uma espécie de “bitola” nos estudantes para que eles possam desenvolver o saber em um sentido único. Trata-se assim de desenvolver apenas essas técnicas bastante minuciosas e complexas a serviço de uma sociedade de mercado na qual já não se busca estudar suas estruturas enquanto um todo, mas apenas depreender meios para promover sua reprodução. Esses meios são a técnica, objeto de estudo quase único nas universidades hoje.
            È assim que se evidencia que a universidade contemporânea tem preponderantemente a função de ensinar o sistema e não mais se questionar sobre ele. Logo não se busca o entendimento da sociedade nem se questionar sobre seus objetivos, procura-se puramente estudar meios para manter as engrenagens funcionando de modo a provocar uma continuidade dos rumos desse desenvolvimento dado.   
            Agora, no que isso se diferencia da alienação marxista do operariado? É dessa forma que o estudante moderno não é menos alienado que o operário dos tempos modernos de Chaplin. Enquanto o operário passa o dia apertando parafusos numa fábrica e pode nem saber o que efetivamente se monta, o estudante passa sua estadia na universidade desenvolvendo técnicas que em nenhum momento se busca efetivamente conhecer suas finalidades. É assim que se garante um desenvolvimento da sociedade buscando se chegar a um destino que é absolutamente ignorado pelos condutores dos motores que impulsionam esse movimento.
            No caso do estudante, entendo que a alienação é um pouco mais gravosa do que no operário dos tempos modernos. A verdade é que o estudante dificilmente percebe sua condição, vez que ele está preso dentro de uma lógica que não só é disciplinar como é também espetacular. O estudante acredita estar no “templo do conhecimento”, no local onde se desenvolve o supra-sumo do saber humano. Nesse contexto, fica extremamente difícil enxergar a miséria de sua condição quando ele é visto por todos e por ele mesmo com atributos tão elevados. O espetáculo compõe assim o grande meio para obscurecer a mediocridade da condição do estudante. É por meio das luzes do palco ilusório no qual os estudantes são colocados, que se esconde, sutilmente nos bastidores, a miséria e a mediocridade estudantil. É um show, um espetáculo !   
            Quero por fim que todos entendam que não acredito que possa existir estudante iluminado que se escuse dessa alienação, desse estranhamento. Em verdade, todos, em maior ou menor grau, nos encontramos diante do espetáculo alienante da universidade. A única coisa que julgo possível é que alguns se percebam nessa situação. Mas esse fato não os liberta das amarras alienantes, pode inclusive agravá-las caso esses estudantes, que se supõe “esclarecidos”, passem a crer que detém a verdade; que isso os coloca em patamar mais elevado que os demais. Essa atitude nada mais é do que a construção de outro espetáculo alienante travestido de crítica.
            Meu ponto é que não se pode romper com o espetáculo partindo de uma presunção de que se detém a verdade. Acredito que um possível caminho é precisamente atacar toda e qualquer pretensão absoluta de verdade. Certamente não é “entificando” a verdade em uma análise que se passa possuí-la. A verdade não pode ser possuída, ela é constantemente disputada, mas, ao acreditar possuí-la, apenas se constrói novo palco para o espetáculo moderno, igualmente alienante.         
            O que pretendo é dedicar ainda mais uns dois ou três posts sobre essa temática focando em alguns assuntos peculiares desse contexto. Não sei se conseguirei cumprir com uma agenda, mas prometo tentar manter certa periodicidade nessas postagens.
             Por fim, deixo aqui uma referência e duas dicas.
           A referência é o texto: Da Miséria no Meio Estudantil texto revisado pelo filósofo francês Guy Debord
           A primeira dica é um post diferente do que escrevi aqui, mas interessante, sobre a Academia no Brasil: A Crise na Academia Brasileira do meu amigo Hugo.
            A segunda dica é o Filme The Wall, exemplo claro da “Sociedade do espetáculo” em diversas vertentes não só no meio estudantil.    
            
Desculpem por não conseguir ser mais sintético no post.

Ivan Sampaio

P.s: Vejam a primeira postágem do Blog Aqui onde falei sobre porque criei esse blog.   


[1]  Aqui, entendo que o termo mais adequado talvez não seja alienação, mas sim estranhamento. No jovem Marx a referência geral é o estranhamento, que pode ser pensado inclusive em relações muito mais amplas que a mera produção ou reprodução econômica. Mas como atualmente a palavra estranhamento tem outros significados, opto por me referir a essa idéia como alienação, ainda que isso possa mesmo representar uma imprecisão terminológica.    

domingo, 7 de novembro de 2010

Por que um blog?

Olá !
            Vou iniciar este blog tentando explicar um pouco os motivos que me levaram a me aventurar nessa mídia e os princípios que pretendo adotar nesse espaço.
            Bem, esse blog objetiva simplesmente colocar aqui alguns pensamentos que julgo interessantes e que gostaria de compartilhar e colocar sob o crivo do julgamento alheio. De forma ampla, política é precisamente o que pretendo fazer aqui. Mas como afirmar que farei política é vazio de significado, tendo em vista que não acredito que possa haver conduta não política, o que farei, ou tentarei fazer, é precisamente travar discussões sobre políticas de verdades.
            Nesse sentido já explico o título que dei ao blog. Já sei que se trata de título bastante pretensioso, sei inclusive que não conseguirei dar vazão a essa pretensão, mas quis arriscar. O desmontador aqui uso de forma ambígua, me referindo tanto ao sentido mecânico de separar as partes quanto ao ato do cavaleiro que se arria da montaria. O que quero é, nas publicações, separar a verdade em partes para ser capaz de identificar o que constitui esse verdadeiro. Espero com isso conseguir contribuir para que, aqueles que se dispuserem a ler-me, consigam se arriar das suas verdades, não para se montar nas minhas, mas para que possam contemplar um pouco as partes que compõe essas verdades e principalmente o caminho que se pretende trilhar com elas.
            Não falarei aqui de um único assunto, a intenção é comentar pensamentos que tenho no cotidiano, provenientes das minhas leituras, de notícias sobre as quais eu tenha alguma opinião, sobre fatos que eventualmente não sejam objeto de cobertura da mídia, em fim, creio ter deixado claro que não tenho um assunto pré-definido, e que lidarei com esse espaço abusando do seu maior potencial, a liberdade.
            Orientar-me-ei aqui por dois princípios básicos. O primeiro é um imperativo categórico: a negativa absoluta da neutralidade. “Todo conhecimento, seja ele científico ou ideológico, só pode existir a partir de condições políticas que são as condições para que se formem tanto o sujeito quanto os domínios de saber.” [1] Dessa maneira, é preciso reconhecer que esse blog também estará “maculado” com as limitações históricas desse autor, que é incapaz de ser neutro e se recusa a tentar se “travestir” com essa pretensão.
            O meu segundo princípio já foi mais ou menos enunciado. Trata-se da um princípio de método. Quero aqui por tudo em questionamento. Não busco o ponto de apoio de Arquimedes, quero essencialmente desestabilizar, dissolver, desfazer, desmontar o que se entende por verdade e tratar a verdade como produto de um solo histórico e que é constituída e limitada por esse episteme.        
            Já peço desculpas de antemão por que sei que não conseguirei cumprir isso que estou me propondo e já sei que diversas vezes simplesmente esboçarei aqui alguma opinião mal formulada. Acredito que mesmo nesses momentos de “falha” o blog terá sua “utilidade”: abrir a discussão sobre esses raciocínios e me ajudar a aperfeiçoá-los ou descartá-los.
            Por fim quero expressar uma última expectativa minha. De forma geral, espero que esse blog não sirva para nada. Num mundo onde tudo parece servir para alguma coisa, acho que seria curioso dedicar um tempo de nossas vidas a algo que não serve para nada. Acredito que ao nos dedicarmos a algo que não serve para nada, sejamos capazes de perceber que não servir para nada significa fundamentalmente não servir a nada do que está posto. E é através dessas coisas inúteis que espero que consigamos perceber que tudo que serve para alguma coisa serve antes a algo. Creio que é então através das coisas inúteis que podemos perceber ao que serve aquilo que dizemos ser útil.                   
            Desejo a tod@s grandes momentos de inutilidade nesse espaço.

Cordialmente
Ivan Sampaio 


[1]FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 23ª edição, Editora Graal. Rio de Janeiro. 2007 – Introdução (Pag. XXI).