Hoje vou cumprir com o prometido e retomar o tema que iniciei no post A alienação no meio estudantil.

Essa mudança a que me refiro trata-se, fundamentalmente, do momento em que se percebeu o potencial da universidade para o projeto de desenvolvimento da modernidade. Em verdade a atual complexidade que tomou conta da vida moderna passa a demandar outra forma de profissionais. A mão de obra agora precisa ter algumas qualificações e algumas capacidades específicas, mas, assim como na alienação[1] fabril, esses novos profissionais também não podem ter a visão da totalidade do processo no qual serão inseridos.
É ai que a universidade passa, paulatinamente, a deixar de formar os “intelectuais burgueses” e começa a formar os técnicos que terão de operar o “sistema” em quase todos os níveis.
Antes dessas transformações o objetivo da universidade era fundamentalmente a formação de intelectuais da burguesia. Era da universidade que sairiam aqueles que ocupariam os cargos de projeção na sociedade, em quase todos os ramos. Tratava-se de uma concepção extremamente elitizada. É dessa concepção de universidade que surgem alguns “rituais” que mantemos até hoje em alguns cursos, como as pomposas formaturas, que simbolizam bem esse espírito que foi condutor da universidade por tanto tempo. Hoje esses rituais se mantêm muito mais por tradição do que por real ligação com seus significados originais.
No Brasil, atualmente, o que vemos é uma forte expansão do ensino universitário. Promove-se isso com o fundamento da inclusão. O que não se fala é que não se trata mais da mesma universidade. A idéia agora não é mais a de formar os intelectuais que darão rumo à sociedade. A universidade hoje forma fundamentalmente os “soldadinhos da classe média”. São técnicos com formação extremamente especializada e fragmentada.

Logo, o que se vê hoje é uma universidade muito menos elitizada que nas décadas de 50 e 60, mas que passou a simplesmente formar profissionais com a pretensão de que eles, em nenhum momento pensem, apenas reproduzam o que aprenderam.
Não quero aqui defender o modelo intelectual burguês de universidade. Certamente o ensino extremamente elitizado não deve ser colocado como forma de resistência a essa nova estruturação. Meu ponto é que essa estrutura de universidade vem para cumprir dois papeis fundamentais: primeiro, colocar a universidade dentro dos marcos do capitalismo moderno e das demandas de mercado; e segundo, promover uma divisão internacional do ensino similar a divisão do trabalho, mantendo a modernidade periférica também na periferia do saber sem a possibilidade de se desenvolver em sentido diverso.
Na Europa a coisa não caminhou em passo muito diverso, há algumas diferenças, mas, o mercado também fez sua incursão no espaço universitário. Desde a década de 60 os franceses, por exemplo, já alertam para essas mudanças, em destaque para a internacional situacionista que promoveu o que entendo ser a melhor crítica desse contexto em um texto já referido Da miséria no meio estudantil.
Acredito que o grande marco dessa transformação na Europa seja o chamado processo de Bolonha. Esse processo gestado na universidade de Bolonha é fundamentalmente uma proposta de reestruturação e unificação do ensino superior europeu objetivando a integração das universidades européias para maximizar a empregabilidade dos jovens.

A diferença fundamental está que na chamada modernidade periférica a pretensão é a de formação de “técnicos subalternos”, que serão capazes de executar tarefas precisas, mas que não desenvolverão a técnica, apenas reproduzirão; e nem terão uma formação capaz de dar os rumos a esse desenvolvimento. Para isso as universidades Européias e Americanas manterão sua primazia e formarão aqueles que terão efetivas condições para dar as diretrizes desse desenvolvimento.
Trata-se da mais moderna colonização do pensamento, onde o pensar a técnica e o conhecimento sobre o desenvolvimento permanecem nos centros do sistema e compete à periferia apenas obedecer aos ditames e as direções indicadas pelo saber de quem vai, efetivamente, desenvolver as técnicas a serem reproduzidas.
É preciso que se diga que a visão de totalidade do sistema se perdeu seja no centro ou na periferia da modernidade. As finalidades desse desenvolvimento já não estão mais em questão. A diferença é que enquanto os países do centro formam aqueles que protagonizam o sistema, os países como o Brasil se limitam a formar os executores dessas diretrizes.

É precisamente nesse contexto que vislumbramos a alienação que venho falando. Esses profissionais saber muito bem como chega a um destino que desconhecem. Acredito que nesse ponto valha uma velha citação do filme Queimada! (Gillo Pontecorvo): “Melhor saber onde se quer chegar e não saber como; do que saber como e não saber onde”.
Por fim, destaco que o processo a que me refiro ainda não se concluiu. Obviamente a universidade ainda é bastante elitizada e as transformações promovidas pelo mercado ainda são muito recentes. Mas creio que tracei aqui a direção que todo esse processo tem tomado. A idéia não está sendo inserir a universidade na sociedade ou a sociedade na universidade, mas sim colocar a universidade na órbita dos interesses do mercado e na lógica da produção, onde o estudante é a matéria prima e o técnico o produto.
Bem, sobre o tema recomendo também a leitura do post O Processo de Bolonha: O que é isso? Para quem é isso?
Farei ainda um post sobre essa temática exemplificando o que falei com o ensino jurídico no Brasil e aprofundando um pouco mais na idéia de técnica como alienação. Tentarei publicar o mais breve possível.
Ivan Sampaio
P.s: Desculpem pela qualidade bem inferior desse post, sei que a análise aqui foi colocada de forma muito superficial, mas não consegui o tempo que queria para desenvolver as idéias. Prometo que no próximo corrijo isso.
[1] Da mesma maneira que no post A alienação no meio estudantil, o termo mais adequado aqui possivelmente seria o estranhamento usado por Marx. Tendo em vista, entretanto, a significação que ambos os termos tem hoje, opto por usar alienação ainda que represente uma imprecisão terminológica.